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Uma cronica de Flavia Azevedo muito importante para a ocasião.

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Tragédia não era pra ser diversão de ninguém.

 

Diante de uma tragédia, diante do sangue alheio, diante de corpos desfigurados, sabe o que algumas pessoas sentem? Prazer. Espere, vou ser mais justa. Não são algumas pessoas. Diante de corpos carbonizados, saponificados, mutilados, diante da dor alheia, sabe o que MUITAS pessoas sentem? Prazer. Prazer demais. Não é deixar de se importar, perceba. É mais. É sentir prazer. É curtir. É achar divertido.

Como conciliar tamanha excitação, esse tesão maldito com a imagem de “pessoa de bem”? Como parecer “preocupado” quando o que se quer é diversão, ali? Como ficar bem na foto enquanto se faz a foto que não deveria ser feita? Mente, ué. Faz de conta que a curiosidade é solidariedade. Faz de conta que fotografar defunto com o celular é algum tipo de ajuda. E divulga todo tipo de imagens das vítimas nas redes sociais, nos grupos de amigos, como se aquilo fosse informação. Não é.

Há o fotojornalismo e a sua função. Há profissionais cuja competência é justamente traduzir em imagens, também, momentos assim. Esses, eu entendo e respeito. Se a pauta é um eclipse, há beleza pra deitar e rolar. Se é um naufrágio, fazer o quê, afinal? Há mortos. Há tristeza. E a maioria dos profissionais procura um ângulo, um jeito, um tom que respeite quem está tão dolorosamente exposto ali. Estudaram pra isso. Vivem disso. Grande parte sabe fazer.

Há deslizes, claro. Mas perceba que, por mais erros que o jornalismo cometa, o inferno, nesse aspecto, ainda não é o jornal, o site nem a tevê. Pode piorar muito e piora. Por mais sensacionalista que seja o programa que você escolheu assistir, nos celulares dos transeuntes o sangue jorra mais forte: são as “imagens proibidas”, os super closes que invadem a rede depois de cada tragédia. É justamente quem não ganha dinheiro com isso que faz a “cobertura” mais sangrenta. Por que? Just for fun. Só por puro e estranho prazer.

Sadismo (prazer com a dor alheia). Vilipêndio a cadáver (desrespeito aos mortos, condutas desonrosas em relação a cadáveres). Toda vez, é essa desgraça sobre a desgraça. Em todos os casos, fico em dúvida sobre o que fede mais: corpos em decomposição ou os vivos ao seu redor? O que é mais triste? O morto vulnerável ou o vivente que procura o ângulo mais dramático, registra e diverte amigos com aquilo ali?

Solidariedade é cobrir um corpo enquanto o rabecão não chega, é cuidar dos pertences do morto até a chegada dos familiares, é ajudar a carregar uma maca, é conversar com um acidentado enquanto se espera o socorro. Dizer a ele que confie, que vai ficar tudo bem. Solidariedade também é, nesses casos, cuidar da privacidade do semelhante já tão despido. Vivo ou morto. Seja quem for. O que nos cabe é isso, apenas. Tragédia não era pra ser diversão de ninguém.

É tudo do humano, eu sei. Somos lindos e nojentos, grandiosos e rastejantes. Somos muitos e ações individuais não dizem muita coisa. Tudo previsto. Todo mundo faz parte e cada qual paga sua conta. Ou deveria, pelo menos. Lamento a existência de alguns, aplaudo a trajetória de outros. Sobretudo, entendo que a humanidade nunca foi nem nunca será composta apenas por pessoas bacanas e solidárias. E que, nem em todos os momentos, pessoas boas serão bacanas e solidárias. Comportamentos coletivos, no entanto, sempre indicam uma direção.

Pessoas filmaram uma ambulância pegando fogo aqui perto da minha cidade. Sim, tinha gente morrendo, dentro. O vídeo correu o mundo. Um moço foi esquartejado, colocado numa mala e, no dia seguinte, as fotos já estavam disponíveis. Imagens dos corpos carbonizados da boate Kiss ainda são top five do divertimento da galera. A autópsia do cantor sertanejo foi fotografada e divulgada. E eu poderia encher muitas páginas apenas com citações assim. Mas quero chegar aos posts dos meus amigos pedindo, nas redes sociais, que, por favor, as pessoas não enviem as fotos dos que morreram afogados no naufrágio dessa semana, no mar da Bahia.

Veja bem: é preciso pedir. Se é preciso pedir, é porque é comum pessoas se divertirem assim. É que não se divertir com a desgraça alheia tem ares de exceção. Os seja, é muita gente que chafurda, se diverte, se amarra em tragédia. Ou seja, há abutres por toda parte, de todos os credos, profissões e classes sociais. Ou seja, é muita gente que não vê problemas em vilipendiar cadáveres. E isto é crime, inclusive. Procure saber.

Em momentos assim, me dou conta de que estamos cercados por pessoas que tem menos empatia do que aqueles macacos que velaram um boneco, numa experiência. Eles acharam que ele era um filhote morto e sofreram, abraçaram uns aos outros. Pode ser também isso que as tragédias recentes têm a nos dizer: são os vivos gozando, ao redor dos defuntos, que, de fato, se despedem da vida. Ou da experiência muito maior que ela poderia ser. Que rastejem, então. Que fique claro o que são. Que cumpram as suas missões. Deve ser pra isso que estão aqui: para também nos lembrar, todo dia, da tragédia ética que podemos ser.

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